
Talvez eu até esteja errado, mas duvido muito que a curiosidade não seja uma característica essencial para um jornalista. A questão é quando a gente se aproveita disso para cruzar uma linha – muitas vezes tênue – e ir por um caminho perigoso que beira a falta de respeito. Exemplo prático? Vamos lá.
Sexta-feira, setor do Grêmio, tinha tudo para ser mais uma entrevista como várias outras. A pauta não era nem de longe nova: jogador tido como promessa, no caso Anderson Pico, que perde a vaga no time titular. O guri é gente boa, fala sem muita frescura, não fica na defensiva e tal, então sempre rende legal. Pergunta vai, pergunta vem, alguém aborda com ele os boatos de ser baladeiro. O assunto em si até valeria outra discussão, afinal de contas o atleta tem ou não o direito de fazer o que quiser quando está de folga, a questão é a exposição. Ou como a gente fala informalmente, o jogador que quiser tomar um porre por semana é irreponsável porque está se detonando, mas aquele que toma um porre numa boate, além disso é burro porque está todo mundo vendo.
Mas o que me chamou a atenção não foi essa questão e sim outra. É que lá pelas tantas o Pico disse que não cometia mais os erros que cometia antes. E todo mundo meio que até ali acreditava que ele estava referindo-se a festas e coisa do gênero. Mas não. Com uma sinceridade surpreendente, ele disse que foram erros cometidos no passado e que foram muito graves. Silêncio. Arrisquei perguntar se era algo pontual ou algo que teve uma continuidade. Ele disse que foi algo que levou um tempo, entre 2004 e 2005, mas que ele mesmo tomou a decisão de parar e que para isso teve o apoio da família. Dito isso, a impressão que se tinha na sala de imprensa é a de que todo mundo pensou a mesma coisa. Arrisco dizer que se naquele momento alguém perguntasse diretamente o que estava pensando, Pico responderia na boa. Mas a questão passaria a ser: realmente interessa para a gente fazer o cara se expor dessa forma? Sabendo que na primeira partida ruim dele, algum bocó ia vir com algo do tipo “ah, o fulaninho que fazia tal coisa”? Vamos combinar que para a matéria em si ele dizer que teve um problema grave, que superou e que está na boa basta, o resto é curiosidade mórbida, e não jornalística. Se ele tomar a iniciativa de falar, tudo bem, mas forçar o cara só para saciar a curiosidade seria sim falta de respeito.
- Ficou tudo para trás, tá tudo resolvido?
- Sim, tudo certo, faz tempo, não tem mais nada.
- Beleza então, valeu pela entrevista. Boa sorte aí.