Caracas, moleque

By Carlos Corrêa

# Vamo que hoje vai ser grande.

# Zumbi mode: off

# Finalmente em casa, depois de quase um dia inteiro viajando. Dormir das 2h às 3h30, estar no aeroporto 5h30, embarcar 8h, fazer SEIS horas em São Paulo esperando conexão e chegar em Porto Alegre só 0h, é uma boa maratona. De quebra, chego aqui e o frio voltou.

# Mas voltemos à Venezuela. Do começo.

# Cheguei lá na terça-feira 6h. Se eu recebesse R$ 10 cada vez que escutei mensagens sobre a gripe suína, a viagem teria sido financeiramente linda. O pessoal do jornal tinha dito que ia ter alguém me esperando pra fazer o translado até o hotel. De brincadeira, até ia tirar uma foto da pessoa segurando uma plaquinha com o meu nome, mas quando vi a pinta, achei melhor não brincar. Parecia coadjuvante de filme chicano. Mas no caminho pro hotel, fui conversando com o señor Orlando e ele até pareceu gente fina. Deu umas boas dicas de comida, mas acabei não provando nenhuma delas.

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# As primeiras impressões de Caracas foram todas de trânsito. E todas elas se confirmaram nos outros dias. Primeiro, salvo as madrugadas, a capital venezuelana tem tranqueira SEMPRE. Não é um engarrafamento qualquer, é uma tranqueira master. O trânsito lá é meio bangue-bangue, os caras vão de uma pista pra outra quando bem entendem, sinal pra quê? E o pior é que não resta outra alternativas, já que são avenidas enormes, com várias pistas. Ou seja, desista da ideia de ir a pé porque tu nunca, nunca mesmo vai conseguir atravessar a rua.

# Taxímetro não existe lá. Os trechos são todos tabelados, tu entra no carro, diz “tal lugar” e o motora dá o preço. Quer quer, não quer, sai.

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# Ainda carros. Não lembro de ter visto um ônibus em boas condições. Aliás, não lembro de ter visto um que não esteja batido atrás.

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# Mais carros. Ou são uns carrões novos ou aquelas banheiras dos anos 70 (com direito ao motora dirigindo com uma mão só e com o outro braço apoiado no vidro, uma coisa seriado policial anos 80). Ah, e camionetes. Muitas delas, 4×4 faz sucesso pra caramba lá.

# Tá, chega de carros.

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# A ideia inicial era ficar no mesmo hotel do Grêmio, até por isso fui em outro vôo (só podia ir no vôo fretado pelo clube se comprasse o pacote da agência, mas era venda casada com outro hotel). Beleza, hotel marcado e tudo mais. Só que depois disso, o Grêmio trocou de hotel e não conseguimos trocar. Não chegou a ser ruim, até porque esse primeiro hotel tinha umas 200 estrelas. Se eu resolvesse almoçar por lá, acho que teria que comprometer meu 13º ou então parcelar em 10x. Pela vista do quarto aí tu vê que eu não minto.

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# Não é desprezo dos venezuelanos ou coisa do gênero. Mas futebol pra eles está longe de ser o maior dos interesses. O negócio lá é beisebol e pronto. Depois, ainda vêm boxe e basquete e só depois, talveeez futebol. Por isso, acho que no dia em que o Grêmio foi fazer o reconhecimento do treino rolou muito mais mosquice do que sacanagem mesmo. Quando a delegação chegou ao estádio da UCV, não tinha mais luz e o pessoal da universidade estava treinando atletismo bem na boa na pista. E ali continuaram, até porque quem estava à volta não sabia o que era o Grêmio, no máximo sabiam que o Caracas jogaria no outro dia. Ah, o treino de atletismo continuou sem problemas.

# Os gramados da segunda divisão do Gauchão não perderiam em nada para o campo da UCV. A bola não rola lá, pica (eu sei que o certo é quicar, mas parece certinho demais pro meu gosto) o tempo todo.

# De longe, o que mais chamou atenção na torcida foi o lance dos fogos. Empolgação toda torcida tem, vamos combinar. O que em Caracas tem de diferente é mesmo o fogo. Literalmente falando. Perguntei pra um repórter deles como funciona aquilo e é tão simples como surreal para uma partida de futebol. É o seguinte: os caras levam um pote de spray, tipo de desodorante, manja? Só que ao invés de desodorante, os caras tacam gasolina, diesel ou algo do gênero. Então, na hora apertam e junto acendem um isqueiro. E foda-se que tenha uma galera à volta. Mas o efeito de longe é bem bonito, é preciso admitir. Imagina se a mesma coisa fosse liberada num Gre-Nal, por exemplo. A ala de queimados do HPS ia precisar muito de um reforço.

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# O estádio em si é bem ajeitadinho, as cabines bem boas para trabalhar (tem entrada de internet a cabo, coisa que nem Beira-Rio ou Olímpico oferece hoje em dia) e os venezuelanos foram bem atenciosos. E, ainda bem, esse setor aí de cima não tem nada a ver com o que o nome sugere.

# O jogo? O Caracas tem uma jogada aérea forte. E não vejo muito além disso. O Grêmio jogou só 15min e mesmo assim quase conseguiu virar no final. Aqui em Porto Alegre, deve passar sem nenhuma dificuldade.

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# A Coligay. Valeria uma matéria saber quem botou a faixa lá. O problema é que a gente estava do outro lado do estádio e não tinha acesso àquela parte. Como as letras estavam em preto, azul e branco, é óbvio que era uma menção à torcida gay que o tricolor tinha nos anos 70. Por outro lado, como estava na torcida do Caracas, podia ser sacanagem só. Se bem que, caso fosse mesmo algum remanescente (ou alguém querendo o renascimento do grupo) duvido que os gremistas deixassem o cara botar a faixa lá. Mistério.

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# Eu cheguei terça de manhã e voltei quinta no mesmo horário. Ou seja, na prática foram dois dias inteiros lá. Dessa forma, qualquer avaliação que eu vá fazer do país ou da cidade é só um pouco mais do que superficial. Antes de ir, até tinham me sugerido fazer uma matéria sobre a situação dos venezuelanos, as questões sobre o Hugo Chávez e tal. De cara avisei que não rolaria porque seria a fraude da fraude, em cima do que falei antes ali, é muito pouco tempo. Fiquei com algumas impressões, mas são minhas, nada além disso. Tipo, eu que me considero mais de esquerda e tal fiquei um pouco incomodado com os programas de TV pró-governo. Primeiro porque todos os telejornais são engajados, pró ou contra. Ou seja, não tem como tu ver algo imparcial. Só que a parcialidade é demais. É repórter de uma emissora brigando a cotovelaços (mesmo!) com o de outra, e tudo na frente das câmeras. A hora que fui dormir fiquei vendo um pouco de um debate sobre um protesto “pró-liberdade de expressão” feito pela oposição. No canal pró-Chávez. A reportagem exibida era o seguinte: um repórter, com colete à prova de balas (ou parecia isso ao menos) no meio da galera perguntando por que eles marchavam. Se alguém respondia que era porque faltava liberdade de expressão, ele respondia “mas se você está marchando, não é por que existe essa liberdade?”. Depois, esse mesmo repórter, já no estúdio, sugeria que os manifestantes deviam ser tratados pelo ministério da saúde, porque, segundo ele, só louco pode ser contra o governo. Então coisas assim não têm como deixar uma boa impressão. Até procurei o canal Globovisión, o da oposição, mas no hotel não tinha. Numa dessas – muito provavelmente – me incomodaria tanto quanto o da situação. Perde na real o pessoal de lá, que nunca tem como saber o real lado da história, já que cada um puxa pro seu. Mas é aquela coisa, ninguém pode analisar melhor a situação dos venezuelanos do que os próprios. Não vou ser eu que, em dois dias de viagem, vou dar palpite. Certo?

# Pra finalizar: o silicone na Venezuela deve ser muito barato.

Uma resposta para “Caracas, moleque”

  1. Elio Disse:

    Carlos, parabéns pelo excelente (e divertido) relato de viagem. Deve ter valido muito a pena pela experiência. Abração.

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