Se falou macaco, foi racismo

By Carlos Corrêa

racis

Eu não sei o que o Maxi López falou para o Elicarlos, ontem, perto da linha do meio de campo no gramado do Mineirão. As câmeras mostram o argentino falando algo e o Wagner, do Cruzeiro, partindo para cima dele como o Zidane foi para cima do Materazzi na final da Copa de 2006. Não sei o que foi dito, mas me dou ao direito de achar que não foi pouca coisa pela reação. Daí a afirmar que houve racismo vai uma distância considerável e eu não sou irresponsável. Nem tendencioso.
O que eu sei, e disso tenho certeza, é que racismo é crime sim e é nojento. Diminuir alguém por causa da cor da pele é baixo demais e não cabe em lugar nenhum, seja em um jogo de futebol, seja numa rinha de galo ou onde for. E por isso me preocupa a postura de alguns dirigentes que acham ser normal um jogador chamar o outro de macaco. Argumentam que “é coisa do futebol”. Não é. Mais do que isso. Se para alguns ainda é, que deixe de ser. Por isso, ontem era a hora dos dirigentes deixarem claro isso. Se o Maxi não disse nada, beleza, defendam o jogador. Mas não venham dizer, como ouvi do presidente da Federação Gaúcha de Futebol, Francisco Noveletto, que “macaco” não tem uma conotação pejorativa. Ah não? Pior que isso, só a tentativa de explicação do dirigente: “Ele falou, mas não foi nesse sentido. É como eu chamar alguém de veado”. Ah, então acusar fulano de veado é normal também?
Como eu disse no começo desse post, eu não sei o que o Maxi falou e portanto não posso julgar ele. Posso sim – por mais que alguns dirigentes achem que a verdade pertença a eles – julgar todos os outros fatos consequentes desse episódio. E meu amigo, é uma sucessão de erros de todos os lados. Quer ver só?
# A ação da polícia
Os policiais de BH foram ao vestiário e não encontraram o jogador do Grêmio. Era lógico que ele estava no ônibus. Por que toda uma ação truculenta, com direito a segurança sendo algemado e arma sendo sacada se o argumento era de que um atleta precisava ser levado para depor?

# A ação do Cruzeiro

Rolou racismo? Vai lá e denuncia. Denunciou? Pronto, acabou, tu já fez tua parte. Dar a entender que essa ou aquela direção fez isso pensando em criar clima para o outro jogo nada mais é do que armar clima para o outro jogo. E por mais que ache que isso não muda em nada o teor e a legitimidade da denúncia, esperar o final do jogo para falar de um caso que aconteceu no primeiro tempo é de fato meio estranho.

# A ação da direção do Grêmio
Uma vez que foi informado que a polícia queria ouvir o jogador, por que armar todo aquele circo? Barrar a entrada de policiais no ônibus? Se negar a sair da frente? Por algum momento passou pela cabeça de alguém ali que a polícia iria desistir de ouvir o Maxi? Tentar uma negociação rápida para a saída do jogador era o mais sensato. Quanto mais expectativa tu cria, é óbvio que maior será a tua exposição. Deu no que deu.

# A entrevista do Paulo Autuori
Paulo Autuori chegou com fama de gentleman. E de fato, nas primeiras semanas, honrou a fama. Em todas as entrevistas foi atencioso, sincero nas respostas e sempre claro ao explicar cada uma delas. Nessas últimas semanas algo parece tirar um pouco da paciência do treinador, talvez reflexo da instabilidade do time, que ainda não engrenou como devia. No final de semana, já havia dado uma impressão de irritação na coletiva depois de empatar com o Goiás. Nada demais para os repórteres que conviveram mais de um ano com Celso Roth, mas estranho para quem vinha se acostumando com o Autuori way of life. Pois ontem, depois do jogo, ele até foi bem. O problema foi depois do depoimento, na saída da delegacia. Só a tensão de quem pouco antes recebera voz de prisão por desacato à autoridade (posteriormente retirada) explica uma pessoa inteligente e culta como Autuori afirmar que não há nada demais na suposta acusação de racismo. Afirmar que isso acontece sempre e que é do jogo. Afirmar que é hipocrisia. Mas o pior: afirmar que temos que nos preocupar com coisas mais importantes? Desculpa, Paulo, posso até estar errado, mas acho que me preocupa mais uma acusação de um jogador chamando um colega de macaco do que as falhas da zaga do Grêmio.

# A postura do Grêmio para o jogo da volta
Conversei demoradamente com o assessor de futebol Luiz Onofre Meira hoje à tarde. Estou pra dizer que foi das melhores conversas que já tive com ele. Talvez não tenhamos concordado em nada, mas cada um apresentava seus argumentos, respeitava o do outro e seguia o papo. Pena que quando chegou o outro dirigente, André Krieger, a coisa não foi pelo mesmo caminho. Mas voltando… Questionei o Meira se quando a torcida do Grêmio grita “Chora macaco imundo” é racismo. Ele acha que não. Eu acho que sim. Muita gente acha que não. Muita gente acha que sim. Respeito quem ache que sim. Perguntei se não era mais adequado a direção pedir, de alguma forma, que a torcida não gritasse especificamente esse verso, ao menos nesse jogo, já que querendo ou não o Grêmio está em meio a um caso de racismo e todas as atenções sobre isso vão estar voltadas para o Olímpico na semana que vem. Resumindo: vai que alguém bronqueia com isso e tira o mando de campo. O Meira acha que o Grêmio não corre esse risco e argumenta que o clube não tem poder sobre 50 mil torcedores. Entendo o posicionamento dele, mas acho que nesse jogo é dar chance pro azar. Por fim, perguntei se não era o caso ao menos de orientar que não houvesse gritos racistas contra o Elicarlos, caso ele jogue em Porto Alegre. Foi a resposta que, confesso, mais me incomodou. Diz ele que isso foge do controle deles e que acontece em vários lugares. Ponderei se não cabe aos dirigentes ao menos dar o exemplo para que coisas assim deixem de acontecer. “Acho que tu está sendo muito rigoroso”, disse o Meira.
Meira, contra racismo, posso ser rigoroso sim. E acho que tu, o Grêmio, o Inter e qualquer outro time deveria ser também. Quem sabe quando todo mundo for, a gente só discuta os resultados da rodada.
Tomara.

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