Eu odeio as interativas

Modo ódio: on.

Eu nunca curti e sempre achei tendenciosas, mas essa semana descobri que eu odeio pesquisas interativas. Talvez seja fraqueza minha, mas elas me irritam profundamente. E não tem como fugir. Tu abre qualquer site e está lá: “A ou B?”, “A favor disso ou daquilo?”, “Quem deve ser o namorado da Deborah Secco na novela?”. Tu liga o rádio ou a TV e tome mais pesquisa: 0800-e-o-escambau para redução da maioridade penal e 0800-e-uma-naba para cadeira elétrica.
Chega! Bem, porque…

# Toda pesquisa interativa é parcial
Mais que isso, quase toda interativa é passional. As perguntas são feitas em cima de fatos ocorridos há pouquíssimo tempo, então é ingenuidade achar que as respostas não vêm muito mais na base da emoção do que qualquer racionalidade. Parece óbvio que depois de um dia inteiro de notícias contra tal político o resultado vai ser a favor da cassação dele e que depois de uma derrota o resultado vai ser pela queda do técnico e por aí vai. Isso naquelas pesquisas feitas pela internet. Nem falo nas feitas pela rádio ou pela TV, onde o apresentador lança a pergunta, faz uma tese de uns 10 minutos a favor de um lado e no final, na cara dura, larga um “mas o ouvite/telespectador vota como quiser”. Aham, claro.
Quando comentei isso com algumas pessoas, um dos argumentos que ouvi foi o de que de “não tem sentido fazer a pergunta em outro momento senão naquele próximo ao fato”. Essas mesmas pessoas, no entanto, concordam que as respostas seriam outras se houvesse um distanciamento. Ou seja, não dá pra levar em consideração uma resposta tão passional assim. O que me faz pensar cada vez mais que muitas delas são feitas não para saber a opinião das pessoas, e sim simplesmente para confirmar tese. É muito fácil fazer uma pergunta, induzir uma resposta – seja com argumentos, seja com a espera pelo exato momento de fazê-la – e aí dizer que o público concorda. Menos, bem menos.

# A própria pergunta
É curioso como o mundo parece ter sempre só duas opções nessas interativas. Ou é isso ou aquilo. Ou fica ou vai. Ou é o melhor de todos os tempos ou o pior. Nesse caso, a culpa é muito menos da pesquisa em si e mais de quem a formula. Volta e meia tem no esporte alguma: “Time tal deveria contratar fulano ou o beltrano?”. Ei, e se a saída não for nenhum dos dois? Mas não, aí vai ter a resposta e… “Torcida acredita que contratação do fulano é a salvação”. Pô, não dá pra pelo menos fazer uma forcinha no Tico e no Teco e bolar perguntas mais inteligentes?

# Opinião pública?
É preciso estar com a auto-estima bombando para dar como “opinião pública” uma pesquisa dessas realizada por um veículo só, seja ele qual for. Acontece um daqueles crimes bárbaros e no dia seguinte pipocam interativas como “Você é a favor da pena de morte?”, “A redução da maioridade é a solução?”. Aí dá o resultado óbvio e começa o papinho de sempre: “A opinião pública é a favor disso, daquilo”. Eu vi a opinião pública naquele plebiscito do desarmamento, quando todo mundo – TODO MUNDO – dizia que ia dar uma coisa e na hora deu outra.
O resultado é sempre reflexo de um público determinado e bastante específico. O que é bem diferente de opinião pública. Até porque, a julgar mails, comentários e coisas do gênero, sabe-se que várias pessoas adoram dar sempre opinião nos mesmos programas. Seguidamente se escuta, mais em rádio, o apresentador ler um mail e completar dizendo que “o fulano que participa sempre”. Logo, sempre os mesmos. Isso para não falar em QUALQUER interativa sobre futebol aqui no estado. A pergunta é o de menos, porque vira sempre um Gre-Nal. Uma por ano então tava bom, né?
Não dá pra esquecer também em que mídia está sendo feita a pesquisa. Por mais que a internet tenha se popularizado, a quantidade de gente sem acesso a um computador é gigantesca, o que tende a apresentar resultados mais elitistas dependendo da questão. Vale o mesmo para interativas realizadas em TV a cabo, já que a imensa maioria da população não tem esse tipo de recurso. Aí é curioso ver uma pesquisa, por exemplo, sobre o MST, os carroceiros ou mesmo um programa como o Bolsa Família, em um canal fechado. Se não der pelo menos 60% de respostas pendendo pro lado mais rico, pode chamar alguém que tem problema na pesquisa.

# Exemplos
Não pesquisei muita coisa. Dei uma olhada rápida em alguns sites só pra mostrar como é absurda a coisa. O caso do Ronaldinho Gaúcho, por exemplo. Foi contratado pelo Milan e as interativas querem saber o que vai ser dele lá na Itália. Como se a opinião das pessoas fosse decisiva nisso, mas enfim. Como era de se esperar, tá todo mundo dizendo que ele vai arrasar, que vai ganhar tudo e tal. Eu disse antes, não pesquisei, mas aposto que se alguém der uma procurada há umas duas semanas, no dia seguinte àquela foto dele gordinho, as pesquisas iam no sentido oposto: “Ele ainda vai jogar como antes?”. E tome não. Na linha do esporte ainda, outra: “Dunga deve sair da Seleção?”. Um dia depois de empatar em casa com a Argentina. Resultado: 64% sim. Nem preciso pesquisar para ter a absoluta certeza de que não teve nenhuma pesquisa perguntando se o trabalho dele era bom depois de ganhar a Copa América.
Mas a melhor de todas, pelo menos das atuais: “Por ter soltado Daniel Dantas, você aprova o pedido de impeachment do presidente do STF?”. Do jeito que ela está formulada, não imagino que tipo de pessoa vai ali e aperta no “não”. Talvez o mesmo tipo de gente que em sites de mulher pelada, na hora de confirmar se tem mais de 18 anos, vai lá e clica no “Não, sou menor de idade”.

Sério, agora que o modo ódio tá passando um pouco, acho que vou torcer para que as interativas sejam que nem criança pequena. Se a gente der pouca atenção, elas se aquietam. Nesse caso, se a gente simplesmente ignorar, quem sabe um dia elas somem.

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